Sem Pressa, Rumo ao Sul

São Paulo, dia 0

Amanhã começa a viagem. Já está tarde, portanto serei breve.

Fazer as malas e preparar todas as coisas da viagem foi bastante cansativo, principalmente para a mente. A parte mais importante da viagem é certamente antes da partida. É nessa hora que temos que traçar mentalmente tudo o que precisaremos e ir atrás do que for necessário.

Hoje, já com bastante experiência, eu me sinto bastante seguro para lançar mão de todas as técnicas de viagem de baixo custo que coloquei em prática nos últimos anos, por isso não estou muito preocupado com planejamentos de roteiro e disponibilidade de cada lugar. A experiência me ensinou que é mais fácil decidir na hora do que tentar alterar um plano que fatalmente teria de ser corrigido devido a imprevistos comuns a viagens, principalmente as longas.

O que mais me ocupou a cabeça nos últimos dias foram os fatores transporte de dinheiro, peso das mochilas e manter os equipamentos secos. Nesse momento pré-viagem eu acredito que tomei as providências corretas, mas vamos deixar o tempo dizer…

Hasta Siempre!

Obs. Não, nós não vamos de carro

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Packing Alex

Backpack_Bin

Backpack Bin

 

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Irlanda Selvagem

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As cidades irlandesas são ótimas, o povo é muito amigável e mais de uma vez eu fui parada na rua por um irlandês que só queria bater papo. Só que a melhor parte da Irlanda está na natureza.

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O verde é mais verde na Irlanda. Acho que como está sempre chovendo as cores ficam mais vivas, por isso as viagens de ônibus são recompensadas por paisagens de campos sem fim e uma infinidade de ovelhas.

Lá tem todo tipo de ovelha, branca de lã branca, preta de lã branca e até algumas ovelhas negras. Quando você se encontra em um campo bem verde lotado ovelhas, poderia estar em qualquer lugar da Irlanda.

Só que na Irlanda existem outras maravilhas além de ovelhas verdes e guinness. Os pontos mais interessantes para se visitar são:

Cliffs of Moher – um penhasco gigante a beira mar perto da cidade de Galway

Giants of Causeway – uma formação rochosa bastante peculiar na Irlanda do Norte

Carrick-a-Rede – uma ponte de corda usada pelos pescadores alguns séculos atrás

Cliffs of Moher

Giants of Causeway

Carrick-a-Rede

Irlanda – Capitais e História

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Drunken Octopus wants to fight!

Sinto que estou gradualmente entrando na era digital das viagens e vejo várias vantagens nisso. Não sei bem porque, mas parece que muitos recursos da internet funcionam melhor em aplicativos do que nos próprios computadores.

Um desses aplicativos é o Skyscanner, com ele é possível encontrar passagens baratas de qualquer lugar para qualquer lugar. Já há algum tempo eu estava procurando uma passagem de última hora para a Irlanda e achei uma boa oferta saindo de Bruxelas. Alguns dias e 520km de carona depois lá estava eu em Dublin!

Quando eu digo Irlanda eu me refiro a…

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Irlanda é a ilha menor, dividida

Bom, essa é uma questão delicada. Durante 750 anos a Irlanda foi governada por Londres. Finalmente em 1922 a Irlanda tornou-se independente da rainha, porém uma região do norte da ilha permaneceu sob o controle inglês, a Irlanda do Norte.

Muitos Irlandeses ainda sonham com a Irlanda unificada enquanto outros (no norte) se identificam mais com os britânicos. Essa situação inspirou uma guerra civil que terminou apenas 20 anos atrás, um muro (maior que o de Berlin) em Belfast e diversas canções do U2.

Católicos VS Protestantes

Desde que Henrique VIII decidiu separar-se de sua primeira esposa e adotar uma nova vertente do cristianismo o Reino Unido não sabe o que é paz.

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O cristianismo foi adaptado a religião Celta, como no Sol junto à cruz

Hoje a situação parece estar melhor, só que até agora existe um estranhamento entre os dois grupos, e não é só uma questão religiosa. No Reino Unido e na Irlanda ser protestante é um sinal de apoio à coroa. Isso causa problemas aos protestantes da Irlanda e muitos problemas aos católicos no Reino Unido (principalmente na Irlanda do Norte).

Na Irlanda do Norte: ser católico equivale a ser republicano/revolucionário enquanto ser protestante significa apoio à coroa e ao Reino Unido.

Dublin – Capital da Irlanda

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Além de estar lotada de brasileiros e ter vários museus gratuitos a cidade é ótima para a bohemia. O bairro do Temple Bar está sempre agitado, mesmo de Domingo a noite é possível encontrar um show ao vivo no Mezz. O único problema é que o Burritos&Blues fecha mais cedo de Domingo.

Se você souber aonde ir pode encontrar bares que vende Guinness pela metade do preço em alguns dias da semana, por exemplo o Howl at the Moon de quarta. Se quiser ir para um verdadeiro bar tradicional irlandês o melhor lugar que achei chama-se The Cobblestone, eles são um “Lugar para se beber com um problema de música” ou qualquer coisa semelhante a isso em inglês.

Belfast – Capital da Irlanda do Norte

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Eu realmente não esperava nada de Belfast, mas chegando lá encontrei uma cidade cuja história ainda vive, seja pelos motoristas de táxi, seja pelo muro gigantesco que ainda divide a cidade em duas para separar os católicos dos protestantes, seja pelo sotaque de 200 anos atrás.

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Lá eu fiquei em um hostel fenomenal, chama-se Vagabonds, o staff é extremamente amigável. Eu sai todos os dias com eles e eles até me deixaram dormir uma noite de graça no sofá, pois eu não tinha para onde ir e eles estavam lotados.

Mesmo com tudo isso a melhor qualidade do hostel é que fica a 3 minutos a pé do restaurante China&China!

Black Taxi Tour

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Muro da Paz em Belfast

Similar aos tours oferecidos em Liverpool sobre os Beatles, esses tours não são organizados por guias turísticos, mas por simples motoristas de táxi que levaram passageiros para todos os lados de Belfast durante os tempos de guerra civil. Eles contam a história baseada na sua perspectiva, no meu caso um motorista católico.

Esse taxista disse que perdeu diversos membros de sua família durante a guerra e que ele mesmo já teve 5 vezes uma arma apontada na cabeça. É impressionante pensar que tudo isso aconteceu a tão pouco tempo.

O mais interessante é que sempre que ele tocava em algum ponto polêmico e dava sua opinião ele dizia:

“Mas o que sei? Sou apenas um motorista de táxi.”

Medo

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“Você não tem medo?”
“Sim, mas eu tenho mais medo de ter medo.”

Se eu não esqueci de nenhum, os maiores medos humanos são: morte, desconhecido, ridículo, rejeição, desapontamento, fracasso, solidão, miséria, dor e perder a liberdade.

Já que a morte é uma inevitalidade imprevisível e o resto razoavelmente remediável, escolhi para mim mesmo que o meu maior medo é o de perder a liberdade.

Por um lado a definição de liberdade é uma discussão debatida por pesos pesados filosóficos, por outro a perda de liberdade pode ser extremamente concreta, como ser preso. Um outro meio mais sutil de perda de liberdade é a paralisia gerada pelo medo.

Medo de quê?

Depende, quando se trata de viajar sozinho, medo do desconhecido e medo da solidão são os campeões, em menor intensidade os medos de fracasso, miséria, desapontamento, dor e até morte podem acompanhar as inúmeras angústias e projeções terríveis elaboradas pela nossa mente para nos proteger (isso são 7 dos 10 maiores medos listados acima). Essa proteção, que é a principal função do medo, pode ou não ser sensata. É sensato ter medo de brincar de pega-pega no meio da rodovia, não é sensato ter medo do escuro.

Medir a sensatez de um medo depende muito da quantidade e qualidade das informações que nós temos. Sem informação temos medo do desconhecido, com muita informação de má qualidade – jornais e mídia em geral – ficamos com medo da nossa própria sombra. Muitas vezes o que não é exatamente perigoso é divulgado na mídia, enquanto que os perigos reais não aparecem por não serem chocantes/sensacionalistas o bastante. Por exemplo:

O que é mais perigoso de se ter em casa para uma criança, uma arma ou uma piscina?

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Quando uma criança morre afogada na piscina de casa, o caso recebe cobertura completa do Datena? E quando ela morre brincando com a arma do pai?

É claro que a notícia de uma criança morrendo por brincar com a arma do pai gera uma forte reação emocional. Porém, se colocarmos a indignação de lado e nos concentrarmos nas estatísticas chegamos a conclusões diferentes: para cada 11 mil piscinas residenciais uma criança morre afogada, por outro lado, uma criança é morta dentro de casa para cada 1 milhão de armas de fogo. Nesse caso, a piscina é 90 vezes mais perigosa do que a arma! E não só isso, o próprio autor deste texto já foi atacado por uma piscina quando era criança!

Isso nenhum jornal fala e é exatamente por isso que nós não devemos basear nossos medos pelas páginas policiais.

Antes de experimentar Couchsurfing ou pedir carona pela primeira vez eu pesquisei, li relatos de pessoas que fizeram, avaliei os reais riscos e finalmente decidi que valeria a pena tentar. Olhando pra trás e posso dizer que não me arrependo nem um pouco.

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Ártico Cênico

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Noite Polar

A Noite Polar é um período de aproximadamente 2 meses em que o Sol fica abaixo do horizonte, em outras palavras, ele se põe em Novembro e nasce em Janeiro. A sensação não chega a ser de uma noite eterna, pois perto do meio-dia fica parecendo que o Sol está para nascer e há alguma claridade que logo vai embora.

O Sol da Meia-Noite é simplesmente o efeito contrário, o Sol nasce em Junho e se põe em Agosto.

Aurora Boreal

Aurora o quê?

O produto da interação de ondas eletromagnéticas provenientes dos ventos solares que se concentram nos polos, excitam elétrons da atmosfera e geram luzes (normalmente verdes, mas podem ser vermelhas) é conhecido como Aurora Boreal no hemisfério norte e Aurora Austral no hemisfério sul.

Muita gente se confunde com a época em que é possível observar esse fenômeno, mas a regra é clara. As auroras são um tipo de luz gerada na atmosfera durante o ano todo, só que essa luz não é forte o suficiente para competir com o Sol, por isso só pode ser avistada a noite. Assim, quem quiser vê-la terá mais chances de sucesso no inverno (basicamente porque é noite o tempo todo), e mesmo assim não é garantido.

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Fonte: internet =]

Nas duas semanas que eu passei no Ártico só consegui avistá-la duas vezes e em duas noites seguidas de “bom tempo”. Nas primeiras 10 noites eu não vi nada e olha que eu me esforcei. Em geral o problema é que ou o Sol não está muito ativo ou está nublado, e geralmente está nublado.

Explorando um mundo congelado

Ao final da minha estadia no Ártico eu já estava mais ao Sul e em 18 de Janeiro até vi o primeiro nascer do Sol do ano de uma vila chamada Lødingen. Com essa claridade extra eu consegui me aventurar um pouco mais na natureza, andar no Atlântico congelado, fazer algumas trilhas na neve e até ver um grupo de alces a distância.

Onde todos se encontram

Nos polos as culturas se encontram da mesma forma que as linhas longitudinais. Eu nunca vivi um ambiente tão internacional como o Ártico, chegando ao ápice em uma fogueira a -15ºC com outras 10 pessoas de diferentes países, todos a espera da Aurora Boreal.

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Foi muito interessante conversar com cada um e descobrir os porquês de estar num lugar tão extremo. A maioria só estava lá para juntar dinheiro ou viajar, mas alguns estavam trabalhando com exploração de petróleo, estudando geleiras, observando baleias e até fazendo um documentário.

Para a felicidade geral da galera a Aurora apareceu!

Dormindo ao Relento 

Após atravessar a fronteira da Noruega com a Finlândia de carona eu estava mais do que cansado e só queria dormir. Chegando em Tromsø eu fui direto para casa da Serena, uma italiana que após completar seus estudos linguísticos foi juntar dinheiro na Noruega. Como tudo é muito caro lá, qualquer trabalho é extremamente bem remunerado e qualquer um consegue juntar uma boa grana em pouco tempo desde que abdique de festas, restaurantes, bares e cerveja.

Os preços são tão altos que uma breja chega a custar €10,00 num bar, isso é mais de R$30,00!

Voltando à Serena. Italianos costumam ser muito hospitaleiros e divertidos, mas também são meio atrapalhados. Por exemplo, quando eu cheguei na casa dela ela não estava. Na verdade ela se esqueceu que eu vinha e foi para o centro com alguns amigos. Depois de uma meia hora de espera eu já estava ficando com frio e decidi testar o meu saco de dormir pela primeira vez. Algumas horas se passaram e quando ela voltou encontrou um ser mumificado na entrada de sua casa.

CouchSurfing

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Mais uma vez eu venho fazer propaganda do CouchSurfing, afinal, eu tenho muito a agradecer a esse conceito/website/membros. Sem ele essa viagem certamente não teria sido possível devido aos preços e clima absurdos, que tornam acampar ou dormir num hotel opções inviáveis. Com muita persistência e um pouco de sorte eu fui hospedado todas as 24 noites que eu passei na Escandinávia e certamente me diverti muito mais do que se eu tivesse simplesmente pago um quarto de hotel.

The Hitchhiker’s Guide to the Arctic — Winter Version

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Essa é a primeira e mais importante precaução que o caroneiro do ártico deve tomar. A incerteza é inerente à prática de pedir carona. Você deve estar ciente da insciência que o aguarda. Quanto tempo leva para um carro parar? Algo entre 5 minutos e 5 horas, mas é claro que pode demorar mais ou menos do que isso. Portanto, leve um pouco de alimento, água, música e paciência. Quando os suprimentos terminarem talvez você possa considerar entrar em pânico, apesar de não ser recomendado.

CAMADAS, CAMADAS E MAIS CAMADAS — COMO UM OGRO

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O Ártico é por definição frio, muito frio. Se você der sorte talvez esteja só frio. Por isso lembre-se de vestir sua segunda pele, seu agasalho e suas roupas de lã. Proteja bem as orelhas. Se você tiver um piercing de metal, CUBRA-O! A ultima coisa que você quer é uma peça de metal em contato direto com a sua pele a uma temperatura de -15ºC (queima e fica dolorido por horas).

Lembre-se de que, apesar de não chover no Ártico, a neve está em toda parte e os ventos podem ser fortíssimos, por isso a última camada deve ser impermeável e corta vento.

CERTIFIQUE-SE DE QUE VOCÊ SERÁ VISTO

Coletes Refletores também podem ser sexy.

No inverno o Sol se põe em Novembro e só volta a nascer no final de Janeiro, por isso são grandes as chances de que você estará pedindo carona em total escuridão. Para melhorar suas chances de ser visto, não causar acidentes e ainda conseguir a sua carona é importante usar um colete refletor.

FAÇA UMA PLACA EXPLICITANDO O SEU DESTINO

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ESCOLHA UM LUGAR ONDE OS CARROS POSSAM AVISTÁ-LO COM ANTECEDÊNCIA E PARAR EM SEGURANÇA

Rotatórias são ótimas para isso.

SE PUDER, PARE EM POSTOS DE ESTRADA E ABORDE OS MOTORISTAS PESSOALMENTE

SORRIA

E novamente, NÃO ENTRE EM PÂNICO!

Este guia foi elaborado com base em experiências reais do autor e algumas alusões a obras cômicas da cultura pop da década de 1980.

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Atravessando a fronteira da Finlândia com a Noruega de carona.


Notas sobre nada

Só escrevi o título deste artigo em inglês porque a tradução natural seria “O Guia do Mochileiro do Ártico”, o que não expressaria exatamente o que eu quero expressar.

Existe uma diferença entre mochileiro e hitchhiker. A tradução de mochileiro para o inglês seria backpacker, enquanto hitchhiker em português significa algo como caroneiro ou alguém que pede carona.

Se a obra de Douglas Adams tivesse sido apropriadamente traduzida (o que parece que simplesmente não acontece em traduções de títulos no Brasil) se chamaria “O Guia do Caroneiro das Galáxias”. É verdade que a palavra caroneiro soa estranha, mas também é verdade que os nossos ouvidos já teriam se acostumado depois de 25 anos.

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Rovaniemi, capital da Lapônia, norte da Finlândia.

Eu nunca pensei que esse negócio de andar por aí sem rumo me faria cruzar a linha do Círculo Polar Ártico, mas Thor e outros Poderes Supremos do Norte me ofereceram essa oportunidade, mesmo que nas mais adversas condições possíveis:

  • sem lugar para ficar;
  • sem amigos;
  • no inverno;
  • sem Sol;
  • numa das regiões mais caras do mundo.

É, parece que chegou a hora de colocar a prova tudo o que eu andei desenvolvendo com relação a viajar barato e ver se eu consigo sobreviver ao inverno escandinavo.

Pensei bastante se eu não deveria simplesmente mandar tudo à merda e não fazer essa viagem, mas entre um ataque de pânico e outro eu comprei um belo par de botas e um saco de dormir potente (que já foi usado numa situação hilária) e aceitei o desafio.

Então está decidido. Eu sei o que fazer.

Em primeiro lugar não posso me dar ao luxo de pagar por hotéis nessa parte do mundo, por isso tenho que conseguir lugar para dormir sempre. Não precisa ser necessariamente uma cama ou um sofá na casa de alguém, um pedaço de chão protegido do frio já serve, por isso qualquer estação trem que eu conseguisse entrar já me salvaria pela noite. Na pior das hipóteses eu poderia ir para algum bar e tentar conhecer alguém que me hospedasse, eu mesmo nunca fiz isso, mas conheço bastante gente que fez e vale a tentativa. Se tudo falhar eu teria que pagar pela hospedagem, mas isso para mim significa fracassar, e se eu fracassar teria que voltar, pois aqui poucos fracassos são suficientes para me levar a bancarrota.

Até agora o Couchsurfing não me deixou na mão nenhuma noite. Essa ferramenta é incrível, já fiquei na casa de um finlandês, finlandesa, dinamarquês, italiana e hoje estou indo ficar na casa de um norueguês, tudo em menos de duas semanas! É claro que nas regiões mais remotas é mais difícil de encontrar um anfitrião, em uma cidade eu tive que mandar milhões de mensagens por 10 dias seguidos para conseguir um abrigo, mas sem dúvida valeu o esforço.

 

Enfim, antes que eu me estenda muito…

Rovaniemi

A capital da Lapônia é uma cidadezinha lindíssima, principalmente no inverno. A neve garante uma paisagem interessante, quando há alguma claridade (por volta do meio dia) as florestas boreais ficam com um tom azulado brilhante e durante a noite a neve reflete a iluminação das ruas.

Aqui já é norte o suficiente para ver as auroras boreais, mas só é possível vê-las se estiver escuro, por isso é bom sair um pouco dos arredores da cidade para melhorar as chances de avistá-las. É claro que isso quer dizer sair no escuro numa temperatura de -15ºC por algumas horas e ficar olhando para o céu, o que pode não ser lá a experiência mais agradável. Durante esses passeios eu fiz uma descoberta relacionada ao clima polar: o frio não é a força mais poderosa do Ártico, não, o primeiro lugar pertence ao Vento. É impressionante, mas caminhar a -20ºC sem vento pode ser melhor do que fazer o mesmo a -5ºC quando o vento está forte.

Acho que ficou claro o quanto eu aprendi caminhando sozinho no frio e na escuridão, só faltou ver a Aurora mesmo.

Rovaniemi, a terra do Papai Noel

Muita gente não sabe, mas o Papai Noel escolheu Rovaniemi para ser a matriz do Natal. Ele mora em uma montanha nas redondezas e tem seu escritório, fábrica, vila e uma fazenda de renas na cidade.

Na fábrica os elfos e elfas trabalham o ano inteiro fazendo mágica e presentes. Há duas formar de tornar-se um elfo:

  • um curso que abrange todo o conteúdo mágico e afins com 99 anos de duração;
  • ou um curso rápido de 25 minutos que foca em ser bom e abraçar os amigos.

Como eu não tinha muito tempo acabei optando pela segunda opção. Entre outras coisa eu aprendi que a crosta terrestre é muito fina dentro da fábrica em Rovaniemi e os elfos tem uma máquina que comanda o movimento de rotação da Terra, no Natal eles diminuem a velocidade de rotação para dar tempo ao bom velhinho de fazer todas as entregas.

Mas o que acontece a -26ºC?

Impossível

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Era Quinta-Feira, 05 de Agosto de 2010, São Carlos, Brasil

Eu estava cerca de duas horas atrasado para uma festa na república de um dos meus bixos da faculdade. Eu odiava festas de terças e quintas, pois era o dia dos meus treinos de Kung Fu e eu nunca faltava (nem nas festas nem nos treinos). Como esperado, a galera já estava mais alegre do que de costume (alguns mais relaxados). No meu curso nós sempre cultivamos uma forte interação entre as turmas de todos os anos, gerando trocas de experiências memoráveis. No dia em questão, após um depoimento particularmente eufórico de uma veterana que acabara de voltar de uma estadia na França, eu decidi que também faria intercâmbio na França. Desse jeito, em meia hora de conversa, ficou decidido.

Eu nunca me senti excepcional e tinha a ideia de que pra fazer intercâmbio é preciso ser excepcional. Por isso, já no dia seguinte eu comecei a olhar os editais da França, custo de aulas de francês, pré-requisitos para ser aceito no programa, etc. Passei um tempo pesquisando os pormenores até que cheguei a conclusão de que com um pouco de esforço eu poderia satisfazer todos os critérios, porém seria quase impossível vencer a concorrência. Eu sempre fui um aluno mediano na universidade e já tinha muita gente aprendendo francês. Segundo a lógica, no mínimo metade dos meus concorrentes teriam notas melhores que as minhas, mau sinal.

Os países que mais oferecem possibilidades de intercâmbio na Europa falam português, inglês, espanhol, francês e alemão. Como o meu problema era a concorrência, as circunstâncias apontaram a Alemanha como minha única chance. Pronto, basta satisfazer os requisitos mínimos de alemão e a vaga é minha! Estamos em Outubro de 2010 e eu estou numa corrida contra o tempo.

Os editais não são exatamente regulares, eu estava terminando o segundo ano de universidade e sair do zero para o intermediário em alemão costuma levar 2 anos. Ou seja, a qualquer momento poderia aparecer uma oportunidade para a Alemanha, mas eu perderia todas até chegar no nível desejado. Para compensar o tempo perdido eu fixei uma meta irreal: chegar no nível intermediário até o final de 2011 (em um ano).

9 meses, 2 cursos intensivos de férias, 1 curso extensivo durante o semestre, dezenas de filmes e um nível pulado depois de estudar sozinho 10 horas por dia durante 4 dias para a prova de nível e… consegui! Ao menos no papel eu era nível intermediário em alemão e já poderia me candidatar a uma vaga. De fato, em Outubro de 2011 o edital surgiu, não havia concorrência e eu conquistei a vaga.

Conclusão:

Existem algumas vantagens em se fixar objetivos irreais ou impossíveis:

  • sabendo que não há tempo ou recursos suficientes para realizar a tarefa é natural substituí-los por foco e dedicação (fatores decisivos e comumente desprezados);
  • todo mundo está muito concentrado fazendo as coisas possíveis, o que deixa o caminho livre para quem quiser fazer o impossível;
  • ninguém tentaria fazer algo impossível se não estiver genuinamente interessado na tarefa;
  • ninguém será julgado por fracassar em uma tarefa impossível;
  • caso fracasse, será muito mais fácil da segunda vez;
  • é uma puta sensação boa quando dá certo!

Extremos

Passei um dia em Helsinki e já entrei em um lago congelado. Nunca senti tanto frio em minha vida, a sensação é bizarra, foi assim:

Marquei de encontrar um finlandês e uma alemã  que eu conheci pelo couchsurfing no ponto de ônibus para nós irmos juntos a uma sauna pública. Chegando lá é claro que eu esqueci de levar chinelos, e o caminho do vestiário até a sauna propriamente dita é ao ar livre de -2ºC e neve no chão por uns 200 metros.

A Finlândia é a terra das saunas, aqui algumas pessoas chegam a ter saunas dentro de casa, assim como alguns hotéis também oferecem esse serviço. As saunas são ultra quentes, eu nunca senti tanto calor na minha vida. Por isso ficava nesse entra e sai da sauna. Até que finalmente meus companheiros decidiram que era hora de dar uma refrescada mais intensa, ou seja, dar um pulinho no lago congelado.

A primeira vez que eles foram eu só olhei, depois eles insistiram até me convencer que é uma boa ideia entrar por livre e espontânea vontade num lago congelado (“é bom pra circulação”, “a sensação é incrível”, “blá blá blá”). Enfim, eu entrei.

Depois de caminhar pisando na neve por um tempo eu só queria tirar os pés do chão e o lago nem parecia mais tão bizarro assim, acho que por isso que entrar não foi tão ruim, só que depois que eu mergulhei a cabeça eu senti uma pressão estranha no peito e não conseguia me movimentar direito. Sai de lá todo torto e fudido, me arrastando e pisando na neve como se fosse brasa. Nessa hora pareceu que meus pés congelaram. Depois que eu voltei pra sauna meu corpo todo tinha se reaquecido, mas os pés continuam dormentes e frios, demorou bastante para eles voltarem ao normal.

Depois disso a alemã ainda foi uma terceira vez, bizarro!

Ônibus ou Avião?

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Magic Bus

Novamente voltamos ao ponto chave do transporte. Como você gostaria de realizar cada um desses trajetos?

  1. São Paulo — Rio de Janeiro       430 Kmil_340x270.440336989_mahr
  2. San Francisco — Los Angeles    615 Km
  3. Hamburg — Munique                   775 Km

Nesses casos, tanto o avião como o ônibus (ou trem) fariam sentido, portanto os fatores decisivos aqui são:

Tempo e Custo (comprar a passagem no dia)

Ônibus

  1. Viação Cometa:  6 horas      R$ 100,00
  2. MegaBus:               8 horas     US$ 30,00
  3. Mein Fern Bus:  10 horas        € 27,00

Trem

  1. Não é uma opção
  2. Amtrak                     6 horas   US$ 60,00
  3. Deutsche Bahn   6 horas        € 142,00

Avião

  1. 0h 55 min    R$ 150,00
  2. 1h 15 min  US$ 650,00
  3. 1h 15 min        € 180,00

Esses valores referem-se a comprar a passagem agora e viajar ainda hoje, portanto os preços para os ônibus e trens devem estar tabelados por volta dessa faixa. No caso do avião é difícil determinar o preço médio, pois esses valores variam muito com a demanda e a antecedência (em outras palavras, sorte), mas já fica claro que voar costuma ser a alternativa mais cara.

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Variação do preço de passagens aéreas de Los Angeles para São Francisco

Passagens aéreas sempre são uma alternativa perigosa quando não envolve planejamento. Não parece existir um preço tabelado para cada vôo, quando temos sorte é possível pagar até mais barato do que as alternativas terrestres. Por outro lado, pagar 5 vezes  ou mais o valor do ônibus é normal. A verdade é que preços de passagens se comportam como a bolsa de valores, de forma aleatória e imprevisível.

“Não tem problema se o avião for caro, o que me importa é chegar logo, e o avião sempre é a alternativa mais rápida, certo?”

ERRADO!!

Não é porque o tempo no ar do avião só dura uma hora que a viagem durará uma hora. Esse ponto é central, é importante ter uma visão mais ampla do processo todo para não se dar mal.

Eu já passei por duas experiências terríveis com vôos que “só duram uma hora” ou são “uma oferta imperdível”.

Na primeira um vôo de uma hora tornou-se uma viagem de 16 horas, pois o avião decolava às 06:00h da manhã e para chegar a tempo eu tive que tomar o último ônibus da véspera para o aeroporto.

Na outra eu consegui um vôo por R$ 30,00 só para aterrisar em um aeroporto isolado cujo único ônibus que ia para a cidade custava R$ 100,00.

Mas não são só para as eventuais armadilhas que nós devemos ficar atentos.

Tomando o trecho de São Paulo — Rio como exemplo. O vôo dura 55 minutos, mas é necessário adicionar uns 50 minutos (num dia e horário sem trânsito) de carro para o aeroporto, mais algo em torno de 1h 30min para fazer o check-in, passar pela segurança e fazer o embarque, depois 20 minutos para pegar as malas na esteira e finalmente 40 minutos (novamente, sem trânsito) de carro do aeroporto até o centro.

Nesse cenário altamente otimista a viagem duraria 4h 15min, só que as chances são grandes de do ônibus vencer a corrida. Sem contar que aviões tem as seguintes desvantagens:

  • Deslocar-se para algum aeroporto (custo envolvido/ida e volta);
  • Restrição de número, peso e volume de bagagens;
  • Restrições de segurança (líquidos, metais, algo cortante, doce de leite);
  • Menos conforto geral (assentos apertados e assentos no meio -ninguém merece-, falta de internet e telefone, comida bizarra, etc…);
  • Gasto energético per capta gigantesco.

Essas experiências desagradáveis me abriram os olhos para o seguinte fato: ônibus e trens podem ser mais vantajosos do que  parecem.